Aluna da rede municipal é exemplo de superação e do sucesso do trabalho da prefeitura no segmento de educação voltado para os mais velhos.

Voltar a folhear um livro, reconhecer as letras no caminho de casa e assinar o próprio nome com orgulho. A alegria de reaprender a ler é uma realidade que ganha cada vez mais espaço nas salas de aula de Saquarema. Contrariando o viés de queda no país e no estado do Rio — onde, entre 2021 e 2025, o número de estudantes da rede pública na Educação de Jovens e Adultos (EJA) caiu 31,6% e 24,9%, respectivamente —, a rede municipal saquaremense celebra um crescimento histórico de 126% no período.

Em apenas cinco anos, a cidade viu o total de alunos da EJA saltar de 630 para 1.424. O avanço expressivo é resultado direto de investimentos constantes da Prefeitura de Saquarema na ampliação das turmas e no apoio permanente para que os estudantes continuem na escola. A conquista rendeu ao município a prestigiada Medalha Paulo Freire, concedida pelo Ministério da Educação (MEC) a apenas 20 redes em todo o país — sendo Saquarema uma das duas únicas contempladas em todo o estado do Rio de Janeiro.

A marca ganhou um significado ainda mais especial nesta semana, pois, na última terça-feira (8), celebrou-se o Dia Mundial da Alfabetização. A data foi criada pela Unesco em 1966 para lembrar ao mundo que a leitura e a escrita são direitos humanos fundamentais, essenciais para a dignidade, a inclusão social e o desenvolvimento de qualquer sociedade.

“A alfabetização é a chave para a liberdade e a autonomia. Ver nossa cidade crescer de forma tão bonita na EJA e ser reconhecida em todo o Brasil com a Medalha Paulo Freire nos enche de orgulho, mas, acima de tudo, nos dá a certeza de que estamos no caminho certo. Neste Dia Mundial da Alfabetização, reafirmamos o compromisso de acolher cada morador que deseja realizar o sonho de estudar, mostrando que nunca é tarde para aprender e reescrever a própria história”, destaca a prefeita Lucimar Vidal.

Renascimento pelas letras

Por trás de cada número há uma história de coragem, como a da assistente social Ana Carla Silva, de 58 anos. Apaixonada pelos livros e acostumada a uma vida intensa de estudos, ela viu sua rotina mudar radicalmente em 2018, após sofrer dois Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) decorrentes de cirurgias de aneurisma. Ana Carla perdeu os movimentos do corpo e precisou de muita fisioterapia para voltar a andar. No entanto, a sequela mais dolorosa foi na leitura: de uma hora para outra, as palavras tinham perdido o sentido.

Morando em Saquarema desde 2024, Ana Carla encontrou na EJA municipal a chance de recomeçar. Hoje, matriculada no 1º Ano do Ensino Fundamental, ela enfrenta diariamente o desafio de se alfabetizar pela segunda vez.

“Graças a Deus, estou me curando. Eu não falava, nem andava. Eu me levantei… Quem diria, né? E agora, aos poucos, eu vou aprendendo, aos poucos”, afirma Ana Carla.

A jornada emociona a filha, a autônoma Juliana Bastos, de 26 anos. “A força de vontade dela é enorme. Primeiro, para voltar a se movimentar e, agora, para voltar a ler. Minha mãe tinha uma vida muito ativa, estudava para concursos, lia bastante. Depois dos AVCs, a gente achava que ela nunca mais iria nem sequer se mover. Mas ela vem se superando. Consegue andar e, hoje, faz questão de ir para a escola. Os estudos para ela não são apenas uma forma de reaprender a ler, mas também uma oportunidade de socialização, conviver com outras pessoas”, conta Juliana.

A sala de aula como refúgio e afeto

O impacto da EJA em Saquarema vai além do aprendizado dos livros; alcança também o coração e a saúde mental dos alunos. Mestre em Educação para a Saúde pela UFRJ, a psicóloga educacional Christiane Wickbold atua no Centro Municipal de Educação Menaldo Carlos de Magalhães — onde Ana Carla estuda — e realiza rodas de conversa periódicas com as turmas.

“O ambiente escolar transforma a rotina desses estudantes. Na EJA, a solidão de casa dá lugar ao carinho, ao sentimento de pertencimento e às novas amizades, mostrando que a escola é, acima de tudo, um espaço de acolhimento e de vida”, reforça a especialista.

Enquanto o país busca formas de reverter a queda nacional de matrículas, Saquarema mostra na prática que, com investimento humano e dedicação, a educação transforma vidas diariamente.

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